Cristina Siza Vieira: “Mais de 70% da hotelaria vai estar encerrada durante o inverno”

Segunda Vaga é o título do ciclo de entrevistas a personalidades das áreas de turismo, hotelaria, restauração e animação em Portugal, que faz um balanço ao verão e perspetiva o porvir repentino do sector, tendo em conta todas as alterações geradas pela pandemia de covid-19. Hoje, Cristina Siza Vieira, Vice-presidente executiva da AHP – Associação da Hotelaria de Portugal reconhece que “2020 é um ano inevitavelmente perdido e com graves perdas” e antecipa: Invernar e tentar sobreviver durante o inverno é o cenário mais provável para os hotéis”.

A AHP – Associação da Hotelaria de Portugal deu a saber recentemente os resultados de um questionário aos associados que faz o balanço do verão e perspetiva o porvir mais repentino do sector. Já é líquido declarar que 2020 é um ano perdido?
Cristina Siza Vieira – Apesar de o verão ter apresentado alguns bons resultados, nomeadamente no Alentejo, no Meio e no Setentrião, a verdade é que em conferência com 2019, ao longo dos três meses de verão, tapume de 50% das unidades de alojamento dos hotéis – entre os que estiveram fechados e os que abriram com segmento da sua capacidade – não chegaram a estar disponíveis para o mercado, e o país, no seu todo, teve um desempenho muito fraco na taxa de ocupação, nos preços e, é simples, no que diz saudação aos mercados emissores de turistas. Acresce que, até dezembro, as previsões são, naturalmente, baixíssimas e, com as novas medidas relacionadas com a evolução da Covid-19, a situação tende a piorar. Não há uma vez que hesitar na resposta: 2020 é um ano inevitavelmente perdido e com graves perdas. Apontamos para menos de 80% de dormidas e de receitas, ou seja, menos €3,6 milénio milhões, só no sector da hotelaria.

Tendo em conta todos esses dados, quais são, por consequência, as maiores preocupações para os hoteleiros portugueses? Corremos o risco da hotelaria colapsar?
Diferentemente do que acontece em alguns outros sectores associados ao turismo, a hotelaria tem uma dimensão empresarial mais elástica e até ao eclodir da crise pandémica as empresas estavam mais capitalizadas, tinham amortizado dívida nos bons anos e por isso estavam bastante sólidas, pelo que a questão das insolvências e do fecho definitivo de portas, por ora, não se coloca. Com base no nosso questionário, as maiores preocupações para os hotéis são a manutenção do quadro de trabalhadores, associada à extensão do lay-off e às novas linhas de base, e a sua saúde financeira. As medidas que têm sido anunciadas pelo Governo têm mantido os empresários à tona mas, no nosso questionário, mais de 98% dos hoteleiros considera que ainda são necessárias novas medidas extraordinárias de base e uma segmento defende mesmo que sejam concedidos apoios a fundo perdido. Supra de tudo são necessárias medidas específicas que ajudem a sustentar levante inverno (também) financeiro.

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Mais especificamente, que medidas são defendidas uma vez que fundamentais pela AHP?
A Associação da Hotelaria de Portugal tem vindo a enviar ao Governo um conjunto de propostas que abrangem quatro eixos: base à tesouraria das empresas turísticas; base à sobrevivência do tecido empresarial hoteleiro; reaquisição da competitividade do setor e das suas empresas; base à manutenção do serviço.

Apesar dos apoios, a verdade é que vários hotéis não reabriram em 2020 e outros já voltaram a fechar com a chegada do outono. Em Espanha, uma ergástulo hoteleira anunciou o fecho de todas as unidades até à primavera; no Algarve fala-se em 70% do parque hoteleiro de portas fechadas até à Páscoa. Esse será o cenário em todo o país?
Sem turistas, sem mercado corporate, sem eventos e com os cada vez maiores condicionalismos à circulação, as cidades estão a ser profundamente afetadas nesta segunda vaga. Os grupos hoteleiros estão, por isso, a adequar a oferta, mantendo as reservas abertas, mas canalizando os clientes para as unidades que não encerram, numa originário medida de racionalidade económica. A questão, neste momento, é outra: não existindo procura, compensa ou não estar desobstruído, tendo em conta as medidas de base à retoma existentes e recordando que agora já é verosímil fazer a redução do horário de trabalho em 100% e a 100% do quadro de trabalhadores… Sem turistas e consumidores parece irracional estar desobstruído.

Mas isso é um invitação a fechar as portas…
Poderia ser lido dessa forma, mas supra de tudo é uma questão de racionalidade económica e sobretudo um incentivo à manutenção do serviço. Nesse contexto, no nosso questionário, exclusivamente 1% dos hoteleiros assumiu estar a negociar despedimentos coletivos e 45% disse estar a reduzir o quadro de trabalhadores da empresa. Em contrapartida, 51% afirmou não pensar, no repentino, em diminuir o número de funcionários. Acreditamos que vai subsistir um fecho sucoso dos hotéis em Portugal, que, sendo temporário, não sabemos até quando se manterá. Se será até março, antes ou depois, é a grande incógnita, sempre associada ao evoluir da pandemia. Nas nossas estimativas garantidamente mais de 70% da hotelaria vai estar encerrada durante o inverno. “Invernar”, “cerrar os dentes” e tentar sobreviver durante o inverno é o cenário mais provável.

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Cristina Siza Vieira

Até agora, quais considera terem sido as lições mais relevantes e que podem trazer ensinamentos para o porvir do turismo em Portugal, nomeadamente na hotelaria?
Um dos temas que a associação tem defendido e que esta pandemia colocou de uma forma premente em cima da mesa é a adequação ou o ajuste do quadro de pessoal das empresas hoteleiras aos picos de produção e a variações de procura. Todos temos uma preocupação grande com a segurança do serviço, e com a qualificação dos profissionais da hotelaria, mas a verdade é que esta indústria tem de ter maleabilidade bastante para não ser obrigada a sobredimensionar os quadros de pessoal e, numa tempo uma vez que esta, ultimar por permanecer tão dependente das ajudas do Estado. Os próximos tempos vão provar essa premência de flexibilidade, seja na marcação de férias dos trabalhadores, seja nos bancos de horas. Temos a noção que estas são medidas difíceis, mas têm de principiar a ser trabalhadas para a indústria hoteleira restabelecer e estar preparada para enfrentar os novos tempos.

A vertente de responsabilidade social e de solidariedade, materializada no programa HOSPES é, talvez, a menos conhecida das tarefas diárias da AHP. Foi galardoada no Prémio Pátrio de Turismo e, mais recentemente, a nível europeu. Nestes tempos de pandemia esta é uma espaço a merecer ainda mais atenção?
De facto, o Programa HOSPES é um projeto que nos enche de orgulho e é totalmente feito nos “bastidores”. Há muito que a AHP está profundamente envolvida na responsabilidade social e sustentabilidade ambiental na hotelaria e vive-a de forma corporativa, assumindo, também uma vez que associação, obrigações nesses domínios. O programa HOSPES, assim batizado em 2017 dá corpo a estes princípios. Cresceu muito de ano para ano até chegar à Plataforma HOSPES by AHP (plataforma do dedo que é exclusivamente um braço extrínseco do programa) que está entre os finalistas dos European Enterprise Promotion Awards, a nível europeu, na categoria “Espeque ao desenvolvimento de mercados ecológicos e à eficiência dos recursos”. Recordo que o programa assenta nas doações dos hotéis associados, de bens e equipamentos, usados mas em bom estado de conservação, a Instituições de Solidariedade Social. Tem uma vertente de responsabilidade social, mas também outra de sustentabilidade ambiental e economia rodear. Até 2019, mais de 100 hotéis doaram tapume de 226 milénio bens a centros de base, centros de dia, casas de base a familiares de pessoas internadas, centros de protecção de refugiados e ainda a centenas de famílias, além de ter também alcance pontual, mas decisivo, em circunstâncias especiais, uma vez que a dos incêndios que assolaram Portugal em 2017. E agora, durante a primeira vaga da Covid-19, os hoteleiros doaram mais de 100 milénio bens, nomeadamente lençóis, cobertores, almofadas e ainda bens de higiene pessoal, que ajudaram a equipar dois hospitais de campanha e os centros de base a populações mais vulneráveis. Para Portugal se declarar uma vez que rumo de primeira grandeza vai ter de se declarar também uma vez que rumo onde os princípios da responsabilidade social e da sustentabilidade ambiental, vividos de forma corporativa e não exclusivamente cada empresa por si – até porque integram os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável – vão passar a ser grandes cartões-de-visita.

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Pode ler AQUI as várias entrevistas do ciclo Segunda Vaga

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Categoria: viajar

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